A população indígena brasileira contemporânea é estimada em aproximadamente 450 mil indivíduos, distribuída em cerca de 220 povos, todos vivenciando, de várias formas e em graus diferenciados, inúmeras pressões e graves violações de direitos humanos. Esta condição de marginalidade e supressão de direitos se reproduz em praticamente todos os países da América Latina onde as populações indígenas se encontram. Nos recônditos mais ermos da Floresta Amazônica, à margem desta contabilidade geral sempre difusa e meramente estatística, subsistem os remanescentes dos primeiros povos, aqueles que são descritos juridicamente como “povos isolados” no Brasil, também chamados “não contatados” ou “autônomos”. Ícones da alteridade bravia e da recusa indômita à aculturação generalizada imposta pela sociedade ocidental são estes os sobreviventes de uma saga secular de confronto, esbulho e extermínio, enfim; todas as facetas da violência genocida que se abateu sobre as populações ameríndias originais, que se perpetua na atualidade. Se por um lado, as estratégias de destruição possam parecer mais sutis, por outro, permanecem igualmente mórbidas e destituidoras do futuro destes povos, uma vez que devastam seus territórios, os recursos naturais e a aniquilação de suas culturas, negando a mera possibilidade do exercício de seu modo de ser e de viver como povos diferenciados e ímpares no grande painel da existência humana. São estes, os teimosos sobreviventes às políticas de forçada “integração”, freqüentemente promovidas pelos próprios Estados Nacionais. Vítimas silentes da invisibilidade social e política, porque ausentes e sem voz pública nos privilegiados fóruns das democracias latino-americanas, os povos isolados subsistem em fuga contínua para os redutos mais inacessíveis das últimas áreas íntegras de uma floresta a cada dia mais devassada e devastada. Reféns do medo permanente têm dependido de vozes e ações pontuais de defensores igualmente isolados numa sociedade global enredada no consumismo. Os últimos povos indígenas isolados na Amazônia e Gran Chaco constituem-se em inestimável patrimônio cultural, biológico e imaterial da humanidade. Sociedades civis e governos têm assistido inertes, à destruição sistemática não só destas populações como também de seus habitat , palco e única via possível da sobrevivência e continuidade de suas existências. |